
Eu cruzei o rio Plata, provavelmente cruzei os pampas gaúchos, cheguei mais ou menos cinco horas da tarde no Rio de Janeiro, e quando cheguei na casa da minha avó, meu primeiro pensamento foi "vou pegar a revista de programação para saber onde está passando o último Harry Potter. Hoje eu assisto esse filme no cinema, senão, só volto em agosto para cá, e aí talvez seja tarde demais!". Eram por volta das cinco e meia, já. Eu iria embora para Minas no dia seguinte pela manhã. O tempo passava, e eu achei uma sessão às seis horas, no Kinoplex, em 2D, que era como eu queria. Decidi, mesmo tendo acabado de chegar de viagem e completamente desarrumada, que estava na hora de ir!
Praticamente voei da casa da minha avó até o shopping (sem usar uma vassoura!), e consegui um dos últimos ingressos para o filme. Cheguei na sala de cinema, e estava ainda no início do filme, para a minha sorte. Estava lotada, mas consegui um bom lugar desocupado (havia umas meninas assistindo ao filme das escadas do cinema, coisa estranha...).
Foram duas horas e dez minutos de filme, e saí bem satisfeita com o que eu vi no cinema. Como é de praxe, eu sempre saio com uma impressão inicial de um filme, mas ao longo do tempo vou refletindo em como este foi dirigido, como foi escrito, como foi o desempenho dos atores e, nesse caso, o quão bem-feita foi a adaptação aos cinemas de um livro. Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte II não foi uma exceção: primeiramente, eu vibrei com o que vi na telona. Mas pensando um pouquinho melhor depois, e compartilhando opiniões com os amigos e na internet, fiquei com o pé atrás em relação ao último filme da franquia cinematográfica que mais vendeu na história. Direi aqui os motivos desse meu "ressabiamento", e porque, no fundo, achei que o filme poderia ser bem melhor.
Em relação à própria adaptação, achei que o ritmo do filme foi bastante confuso. Começou bem lento, com alternância de cenas em fades, depois dando espaço a sequências com diálogos pausados demais, como quando Harry, Rony e Hermione conversam com Grampo e com Olivaras. A cena em Gringotes é bastante demorada também, embora tenha sido muito boa. O enredo continua ainda muito arrastado até Hogwarts - última "morada" de uma Horcrux -, em que os preparativos da batalha começam, que, para mim, é onde se situam as melhores cenas de todo o filme. Protegum maxima é executado pelos bruxos mais velhos, assim como outros feitiços protetores, em um espetáculo visual que me deixou de boca aberta! Embora muitos tenham discordado, gostei de muitas cenas da batalha, embora fossem alternadas com sequências completamente dispensáveis. A partir daí, o filme toma uma narrativa rápida demais: aspectos do livro que deveriam ser abordados não o são (a importância das Horcrux, por exemplo), sendo completamente omitidos. A sequência que correspondia ao capítulo A História do Príncipe, que, em minha opinião, deveria ser um dos mais destacados do filme, passou bem batida. Até para mim, que já havia lido o livro, foi confuso entender o verdadeiro papel de Snape e sua relação com Dumbledore na saga, aspecto importantíssimo para compreender toda a trama. Infelizmente, tal cena da penseira não teve linearidade alguma, e teve gente saindo do cinema pensando que Harry fosse filho de Severo (pasmem!).
Lamentável também foram ter encurtado demais a cena de Harry com Dumbledore, deixando de explicar que o garoto seria o Senhor da Morte por possuir as três relíquias, o que, sinceramente, sintetiza o próprio nome do filme, assim como dá a razão deste não morrer ao ser atingido pela maldição de Voldemort. Muitos espectadores saíram sem entender essa. Terem ignorado completamente a estória complicada de Dumbledore com Grindewald, as relíquias, e com sua família foi algo estúpido, mas que já não poderia ser corrigido (afinal, deveriam abordar o assunto desde o sexto filme, coisa que não fizeram).
As cenas finais da batalha me agradaram, exceto o monólogo ridículo de Neville sobre a suposta morte de Harry; e apesar de ter desagradado a muitos, gostei da morte de Voldermort sim, assim como a sua luta com Potter, que saiu bem melhor do que no livro, excluindo certas coisas, como a ausência de pessoas ao redor na morte do Lorde e todo o diálogo original com Potter (no entanto, o que foi aquilo, Harry agarrando o pescoço do Lorde? Achei que eles fossem se beijar, sério). Harry quebrando a Varinha das Varinhas ao meio sem ter restaurado a sua foi um erro grotesco, e tal cena foi compensada apenas com o epílogo, que apesar de não ter me agradado no livro, ficou com um tom muito bom de "quero-mais" para o final do filme. No geral, infelizmente, o ritmo da produção foi muito mal distribuído, privilegiando cenas não tão essenciais (ceninhas de romance e muitas piadinhas eram completamente descartáveis) ou de ação, que, no final, é que sempre importam para o "povão".
Quanto aos atores, dou destaque ao Ralph Fiennes, a Maggie Smith, a Helena Boham Carter e ao Alan Rickman. Fiennes me surpreendeu em todos os sentidos nesse filme: se nos primeiros filmes era um Voldemort frágil e que não metia medo nem em criança, agora aparece com os pés sujos de sangue, completamente paranóico com seu destino e com toda a sua megalomania à flor da pele. As cenas em que Voldemort tem embates físicos com Potter me agradaram muito, me fizeram ver que o vilão é de fato de carne-e-osso, sendo vulnerável com as Horcrux destruídas. Também surpreendeu a todos com uma risada muito estranha no meio do filme, fazendo a sala inteira cair na gargalhada. Maggie Smith está, como sempre, perfeita interpretando McGonagall, com direito a falas muito peculiares e de fino humor na produção. Apesar da pequena participação, Helena fez uma interpretação incrível como a Belatrix-Hermione, realmente me chamou a atenção. Por fim, Alan Rickman fez outra excelente atuação, embora o roteiro não tenha valorizado seu personagem; muitos adoraram a cena em que Snape abraça Lílian, já morta, mas para mim não passou de um dramalhão de muito mau gosto.
Por fim, dando destaque a cenas muito esperadas e ao roteiro em geral, continuo achando que focaram em aspectos errados neste filme, mas sem ter diminuído sua grandeza. Daniel Radcliffe continua com uma interpretação muito meia-boca, Emma é talentosa, mas seu papel não ajuda (Hermione está sempre chorando, isso me irrita), e Rupert Grint só prova que seu personagem não amadureceu em nada ao longo dos anos. Esperava mais do beijo de Hermine e Rony, embora tenha se saído muito melhor que o de Harry e Gina, que continua como a comida inglesa: completamente sem sal. Muitos atores coadjuvantes continuaram se saindo bem, como ao longo de toda a saga, dando consistência à mesma, embora Neville tenha particularmente tenha me tirado do sério nesse filme; se sair como "herói" trapalhão não foi algo que eu tenha gostado. Algumas modificações da ordem de aparecimento ou da natureza de cenas foram positivas, enquanto outras não foram tão felizes, como Voldemort "sentindo" a destruição das Horcrux e o embate entre a Sr.Weasley e Belatrix. A melhor cena de toda a película foi, com certeza, a da morte de Snape, o verdadeiro herói da trama: a tensão existente entre este e Voldemort chegou a ser palpável, com Fiennes fazendo um trabalho expressivo de excelente qualidade, não menos que Rickman também. Os botes de Nagini em Snape foram extremamente brutais, dando maior tensão à cena.
Depois de eu ter apontado tantos aspectos que me parecem negativos, imagino que vocês estejam pensando "com certeza ela deve ter achado o filme muito fraco, ao final". Minha resposta é não. O filme é bom sim. Eu não tiraria nenhuma das cenas de efeitos especiais, assim como a da ambientação de Hogwarts na batalha, foi realmente algo maravilhoso e que não pode ser visualizado no livro, trabalho de primeiríssima qualidade. A questão é que poderia ser muito melhor se os roteiristas tivessem lidado com a seguinte palavra: prioridade. Prioridade em relação a uma estória com melhor entendimento, e com melhor roteiro; prioridade em ser mais fiel ao livro não por capricho, mas sim por uma questão de coesão. No entanto, estamos falando de um blockbuster. Estamos falando de fãs que realmente vão acabar se contentando com qualquer produção para se emocionarem. Em suma, dou nota entre 7,0 e 7,5, pelo excelente trabalho de ambientação, fotografia, efeitos especiais, algumas boas atuações, e porque, de qualquer maneira, é o final de uma jornada que nos acompanhou durante anos, e que foi fechada de maneira positiva, mas não com chave de ouro, como muitos críticos por aí dizem. Porque, de resto, a nível literário o livro é muito superior, e a nível cinematográfico o início da saga, Harry Potter e a Pedra Filosofal, se saiu muito mais coerente e maduro.



